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terça-feira, 20 de agosto de 2019

Hoje não dançaremos a noite

Ela pega no livro de poemas e começa a ler. Entrementes, distrai-se e inconscientemente o seu pensamento voa para longe e ensaia palavras quase sem nexo: "A outra parte de mim gerada num dia de graça no cimo de alta montanha, enfeitada de coroa de louros, lira pura não dedilhada: Onde estará? Ansiará por mim?"

Recolhe-se por momentos. Lá fora os sons da noite, ténues, num rumorejar fazem dançar o silêncio. Com as mãos cheias de nada agarra a viola e toca a misteriosa música que os búzios transportam desde a noite dos tempos. 

O livro abandonado ganha vida, de novo.





ENTRE CADÊNCIAS

Adormeço entre a bigorna e a cadência
dos relâmpagos. Escavo o minério
por entre os ramos despenhados da ausência

O ritmo partiu-se no ar
e levanto o rosto de encontro ao fogo
quebrado e cego

Hoje não dançaremos a noite
Sou um barco melancólico
entre as dunas do silêncio



ÚLTIMO SILÊNCIO

Queria morrer numa praia desassombradamente livre
morrer sentindo morrer o grito da gaivota -
a pele da areia iluminada como a pele
em torrão da minha pele
como rúbia acendalha do templo, do vidro negro

beber das faúlhas do regaço infindo, 
entrar por todas as aberturas
do último silêncio.

Se gritarem o meu nome
do limiar onde os demónios se amam em loucura -
digam que engoli um astro vivo comprimido
que afogarei num leito de pérolas suavíssimas
com as mãos cheias de noite e de nada
numa praia desassombradamente livre



Ana Pinto é artista plástica, abrangendo as áreas de pintura sobre tela, ilustração e cerâmica.Como tal está representada em várias colecções particulares em Portugal e no estrangeiro.
Escreve poesia desde muito jovem. Em 2004 foi galardoada com o prémio Revelação em Poesia, pela Associação Portuguesa de Escritores (APE) e pelo Instituto Português do livro (IPLB), com o livro “ O pólen do silêncio”.
A sua escrita, de diversas temáticas, incide também em temas clássicos e mitológicos.


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Poemas e biografia de Ana Pinto: daqui
Imagem: Acrílico sobre papel - Ana Pinto Arte
Título do post: Verso do poema "Entre Cadências"





quinta-feira, 19 de março de 2015

O poder das palavras e dos sons e dos sabores

Há poesia no ar por estes dias. Há poemas de todas as cores e sabores. Ah, se eu pudesse trincar a terra toda*, dar-lhe pinceladas de azul de amarelo de verde por cima da sua paleta e saboreá-la em toda a sua dimensão, do alvorecer ao negrume na noite. Tudo canta, tudo baila. Basta apurarmos os ouvidos e deixar que os sentidos se envolvam nesta sinfonia de amor e êxtase. Porque tudo no universo trabalha para isso, porque fazemos parte dele, é hora de escutar os ruídos que procuramos ignorar.

Escutemos estes sons que as palavras de Ana Pinto nos trazem. Bebamo-los de um só trago ou devagar da taça das palavras.

A taça, as palavras

Quero palavras como fruta viva ou pão cozido ao sol 
palavras verdes e roxas, com seiva a correr e bagas cheias,
palavras fermentadas entre a terra e a boca
ou palavras cereais
brotando no trigo das antemanhãs

Quero palavras que se possam plantar em campos extensos,
que estejam nuas e que mantenham intacto o orvalho

Ou palavras temperadas de oiro, entre o metal e a faísca
com o âmago do fogo puro
e a luz toda no seu centro

Afasto a taça das palavras ocas, apodrecidas
sob as trevas dos punhais

Ou então, deixemos o nosso lado místico fazer de nós seres completos e perfeitos. Ouçamos o cantochão numa catedral, imponente, erguendo-se aos céus, o nosso duomo, a nossa casa. Assim os sons dos clássicos, sinfonias, seja a quinta, a nona ou outra, ou sons que vêm desde tempos imemoriais, os dos tambores até aos nossos dias: sejam os ritmos, triste e belo de um fado, dolente de uma morna, remexido de um funaná, ou as rimas faladas e interventivas de um rap.

Tudo isto vejo eu na Catedral da noite desta autora, também artista plástica, que pinta com os olhos do pensamento:

A catedral da noite é como um berço
onde habitam harpas, acordes que procuram
a forma indivisível da casa
em colunas erguidas à última corda dos céus.

Dizem que no meio estão os anjos todos brancos
e que aí a música dos ares abre
crateras amplas de fogo e de cristal. 
E que nas entranhas da noite se move
o espírito do poema. Por isso
nas mãos, nos dedos, 
cresce-me a cadência, o uso
de revolver a palavra no negrume
até descer ao silêncio
e ouvir o som.

Sejamos receptáculos do que é belo e precioso na obra humana e acima de tudo das maravilhas com que a natureza nos brinda todos os dias.

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Pinturas e poemas de Ana Pinto
A 2ª imagem referenciada como "Fragmentos-Colagens"
*Referência minha ao "Guardador de Rebanhos" de Alberto Caeiro.