Recolhe-se por momentos. Lá fora os sons da noite, ténues, num rumorejar fazem dançar o silêncio. Com as mãos cheias de nada agarra a viola e toca a misteriosa música que os búzios transportam desde a noite dos tempos.
O livro abandonado ganha vida, de novo.
ENTRE CADÊNCIAS
Adormeço entre a bigorna e a cadência
dos relâmpagos. Escavo o minério
por entre os ramos despenhados da ausência
O ritmo partiu-se no ar
e levanto o rosto de encontro ao fogo
quebrado e cego
Hoje não dançaremos a noite
Sou um barco melancólico
entre as dunas do silêncio
ÚLTIMO SILÊNCIO
Queria morrer numa praia desassombradamente livre
morrer sentindo morrer o grito da gaivota -
morrer sentindo morrer o grito da gaivota -
a pele da areia iluminada como a pele
em torrão da minha pele
como rúbia acendalha do templo, do vidro negro
beber das faúlhas do regaço infindo,
entrar por todas as aberturas
do último silêncio.
Se gritarem o meu nome
do limiar onde os demónios se amam em loucura -
digam que engoli um astro vivo comprimido
que afogarei num leito de pérolas suavíssimas
com as mãos cheias de noite e de nada
numa praia desassombradamente livre
Ana Pinto é artista plástica, abrangendo as áreas de pintura sobre tela, ilustração e cerâmica.Como tal está representada em várias colecções particulares em Portugal e no estrangeiro.
Escreve poesia desde muito jovem. Em 2004 foi galardoada com o prémio Revelação em Poesia, pela Associação Portuguesa de Escritores (APE) e pelo Instituto Português do livro (IPLB), com o livro “ O pólen do silêncio”.
A sua escrita, de diversas temáticas, incide também em temas clássicos e mitológicos.
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Poemas e biografia de Ana Pinto: daqui


