sábado, 14 de julho de 2012

Férias


MEUS AMIGOS

Fecho para férias.
Deixo-vos com este poema retirado de Nove Rumores do Mar, antologia da Poesia Açoriana Contemporânea, coordenação de Eduardo Bettencourt Pinto:

Devolve-me todos os silêncios

devolve-me todos os silêncios do rosto.
a canção ofegante do sono, o não acordar das manhãs.
devolve-me tudo.
poderei falar-te da lava onde repousaste e das tardes húmidas
da pele nas águas.
os corpos crescendo no manto das ondas.
devolve-me todos os silêncios, a pausa triste da mão sobre
a noite.
a fugacidade dos olhos sobre o campo.
poderei falar-te da paz de uma ilha e dos braços sobre a
alegria das dunas, o crepúsculo avançando sobre a muralha.

Poema de: 
Ângela Almeida


A autora nasceu, em 1959, na Horta, Faial, Açores.
In: nove rumores do mar - pgs.25 a 28, 3ª edição - Instituto Camões, colecção insularidades-2000

Voltarei com mais poetas desta antologia.

Até um dia destes e obrigada pela vossa companhia. :)

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Os poetas, como os cegos, podem ver no escuro


Termino, hoje, esta série de publicações sobre o tema mundo, que visava o dia 11 de Julho, data em que foi assinalado o dia mundial da população ou o dia da população mundial, avaliada, em Outubro de 2011, em sete biliões de pessoas.

Importará reflectirmos sobre quem somos, o que somos, sobre a nossa visão do mundo, fazendo também um balanço sobre o que foi ou o que tem sido a nossa vida de habitantes deste planeta.

Jorge Luís Borges, 1889-1986, escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino, dá-nos a panorâmica de uma vida pautada por determinados valores mas também passível de ter outros aspectos, outra dinâmica, para que ela possa ser vivida em pleno. É, realmente, o balanço de uma vida, este seu fantástico poema.

Em relação ao título deste post, retirei-o de uma citação numa sua biografia e consta também do poema que abaixo transcrevo, não sabendo se dele faz parte ou não. Contudo, segundo consta da referida biografia, ele teria feito esta afirmação em função da sua progressiva cegueira.



Imperdível este video


Instantes
Se eu pudesse novamente viver a vida…
Na próxima…trataria de cometer mais erros…
Não tentaria ser tão perfeito…
Relaxaria mais…
Teria menos pressa e menos medo.
Daria mais valor secundário às coisas secundárias.
Na verdade bem menos coisas levaria a sério.
Seria muito mais alegre do que fui.
Só na alegria existe vida.
Seria mais espontâneo…correria mais riscos, viajaria mais.
Contemplaria mais entardeceres…
Subiria mais montanhas…
Nadaria mais rios…
Seria mais ousado…pois a ousadia move o mundo.
Iria a mais lugares onde nunca fui.
Tomaria mais sorvete e menos sopa…
Teria menos problemas reais…e nenhum imaginário.
Eu fui dessas pessoas que vivem preocupadamente
Cada minuto de sua vida.
Claro que tive momentos de alegria…
Mas se eu pudesse voltar a viver, tentaria viver somente bons momentos.
Nunca perca o agora.
Mesmo porque nada nos garante que estaremos vivos amanhã de manhã.
Eu era destes que não ia a lugar algum sem um termômetro…
Uma bolsa de água quente, um guarda chuvas ou um paraquedas…
Se eu voltasse a viver…viajaria mais leve.
Não levaria comigo nada que fosse apenas um fardo.
Se eu voltasse a viver
Começaria a andar descalço no início da primavera e…
continuaria até o final do outono.
Jamais experimentaria os sentimentos de culpa ou de ódio.
Teria amado mais a liberdade e teria mais amores do que tive.
Viveria cada dia como se fosse um prêmio
E como se fosse o último.
Daria mais voltas em minha rua, contemplaria mais amanheceres e
Brincaria mais do que brinquei.
Teria descoberto mais cedo que só o prazer nos livra da loucura.
Tentaria uma coisa mais nova a cada dia.
Se tivesse outra vez a vida pela frente.
Mas como sabem…
Tenho 88 anos e sei que…estou morrendo.

“Os poetas, como os cegos, podem ver no escuro”

Com esta capacidade de ver onde normalmente pouco ou nada vemos, o poeta considera justos aqueles que se ocupam de algo, mesmo que seja ouvir música, ler um poema, cultivar o seu jardim e que, sem darem por isso, estarão a salvar o mundo...   
Os justos

Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire
O que agradece que na terra haja música. 
O que descobre com prazer uma etimologia. 
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso
 xadrez. 
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
 
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade. 
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
 
O que acarinha um animal adormecido. 
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram. 

O que agradece que na terra haja Stevenson. 
O que prefere que os outros tenham razão.
 
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo. 

População da Nigéria, assim como de todo o continente africano, é uma das que mais cresce no mundo (Foto: Akintunde Akinleye/UNFPA)

Viajantes do espaço e privilegiados, alguns, com os benefícios do progresso,  ligados por fios invisíveis, não importando as coordenadas geográficas: A população mundial, uma realidade mal repartida, amontoada em determinados espaços e rareando noutros, abundando a riqueza ali e faltando o essencial para a sobrevivência acolá, indicador, talvez, da má gestão da nossa inteligência. Conseguiremos algum dia viver, todos, condignamente, qualquer que seja o recanto,  o lugar, o rincão?


NOTA: O poema Instantes, atribuído a Jorge Luís Borges, é apócrifo. Este precioso contributo foi-nos trazido pela autora do Canto da Boca, no seu comentário a este post. Obrigada minha amiga. :)


Poemas de:Jorge Luis Borges - Biografia
Nigéria: Foto Akintunde Akinleye
Imagem Jardim, também da Internet


 As hiperligaçoes permitem aceder aos sites donde retirei o material para a composição deste post, isto é, video, poemas e imagens. Os meus agradecimentos.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

A origem do mundo

A primeira vez que li um poema de Nuno Júdice foi no blogue da minha amiga Isabel, Luz de África. Fiquei tão apaixonada pela sua maneira de escrever que o li várias vezes e trouxe-o comigo. O título do poema: Metamorfose. Tornei-me numa admiradora fervorosa do poeta.

O poema que hoje aqui trago, A origem do mundo, não poderia vir mais a propósito para o tema mundo, aqui em vigor por estes dias e, não há dúvida, Nuno Júdice sabe destas coisas. O nascer do dia, a alvorada e a estrela d' alva a anunciarem um novo dia, o cheirinho de ervas molhadas pelo orvalho, a terra macia a convidar-nos acordar para a vida, tornando-se as nossas raízes mais resistentes às intempéries que, porventura, nos balancem.

Tomemos uma chávena de café na companhia do poeta e apreciemos todo o manancial de luz que as suas palavras nos transmite: 


A origem do mundo

De manhã, apanho as ervas do quintal. A terra, 
ainda fresca, sai com as raízes; e mistura-se com 
a névoa da madrugada. O mundo, então, 
fica ao contrário: o céu, que não vejo, está 
por baixo da terra; e as raízes sobem 
numa direcção invisível. De dentro 
de casa, porém, um cheiro a café chama 
por mim: como se alguém me dissesse 
que é preciso acordar, uma segunda vez, 
para que as raízes cresçam por dentro da 
terra e a névoa, dissipando-se, deixe ver o azul.


Nuno Júdice, in Meditação sobre Ruínas


E eu que sou uma criatura matinal, vejo que o Sol entra pelas frinchas do estore da minha janela, avisando-me que se faz tarde, porque é que hoje me deixei ficar, que lá fora está estuante de vida, bora tomar o café,  o pequeno-almoço, o petit déjeuner, o mata-bicho, o breakfast, o café da manhã, onde quer que eu esteja agora, não interessa...  


Poema de Nuno Júdice retirado do Citador
Imagem da chávena de café retirada da Internet
Foto janela: minha
 




domingo, 8 de julho de 2012

Centro do mundo

As Mães. Elas são o Centro do Mundo. A minha faria hoje anos. Seu nome, Isabel. Tomou da Rainha Santa, Isabel de Aragão, o nome, as qualidades. No nosso imaginário encontra-se bem patente a lenda do milagre das rosas, que mostra a sua piedade e compaixão, mas também a memória da sua acção em prol da concórdia entre pai e filho, D.Dinis e o Infante D.Afonso, herdeiro do trono.


1271-1336

Paraty, Brasil - Centro do Mundo literário. De 4 a 8 de Julho, até hoje, portanto, decorre a 10ª edição da Feira Literária Internacional de Paraty (Flip). E o grande poeta e cronista, Carlos Drummond de Andrade, é ali homenageado. Então, falando-se dele vem-me à ideia o seu poema A Máquina do Mundo:

1902-1987

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.
Ler mais ...


Recuando no tempo, em Os Lusíadas, Canto X,  a deusa Tétis leva o Gama pela mão e mostra-lhe a máquina do Mundo nestes termos:
...
Uniforme, perfeito, em si sustido,
Qual, enfim, Arquétipo  que o criou.
Vendo o Gama este globo comovido,
De espanto e de desejo ali ficou.
Diz-lhe a Deusa:’ o transunto, reduzido
Em pequeno volume, aqui te dou
Do Mundo aos olhos teus, para que vejas
Para onde vás e irás e o que desejas.’

‘Vês aqui a Grande Máquina do Mundo,
Etérea e elemental, que fabricada
Assim foi do Saber, alto e profundo
Que é sem princípio e meta limitada.
Quem cerca em derredor este rotundo
Globo e sua superfície tão limada
É Deus, mas o que é Deus ninguém o entende,
Que a tanto o engenho humano não se estende’


Entre Luís Vaz de Camões, Sec. XVI, e Carlos Drummond de Andrade, Sec.XX, tanto tempo, tanto mar, verificamos uma enorme evolução do pensamento, passando-se a uma visão do mundo fundamentada em princípios científicos. Assim, vê-se o surgimento do Sec. XVII, tido como a era da revolução científica e, nesta matéria, evidencia-se o grande teorizador Isaac Newton. 

Mas a necessidade que o Homem sente em descobrir as origens do mundo e explicar a grande máquina de que fazemos parte não pára. Nos nossos dias o bosão de Higgs, na procura da partícula de Deus, chave primordial para validação da massa das outras partículas elementares- após a nossa grande eclosão conhecida como Big-Bang- o bosão, dizia, parece ser o último grito nesta área.




Enquanto isso, centremo-nos no mistério do amor, na dedicação e abnegação de um coração de Mãe, nos sacrifícios que enfrenta na defesa da sua cria.
Embrulhados no seu xaile, o universo quase que se reduz a um ponto apenas e a explicação da máquina ou origem do mundo torna-se assaz irrelevante. Hoje e sempre relembro a minha mãe e com ela homenageio todas as mães do mundo.

O convite Ler mais está hiperligado aos sites que contêm o poema de Drummond e o canto X de Os Lusíadas
Imagens retiradas Internet. Os meus agradecimentos.
NOTA - HOJE, TAMBÉM É DIA DE SANTA ISABEL, FIGURA BÍBLICA, originando, talvez,ou também, o nome da minha mãe. :)

sábado, 7 de julho de 2012

Usos deste mundo

Hoje trago um poema de Filinto Elísio, pseudónimo de Francisco Manuel do Nascimento, escritor, tradutor, também sacerdote, com raízes culturais fundadas no arcadismo e iluminismo. Denunciado à Inquisição devido às suas ideias enciclopedistas e liberais, foge de Portugal refugiando-se em França, em 1778.
Sigamos Filinto Elísio nestas suas reflexões, nas quais ele evidencia uma posição dura e de muito pessimismo em relação à sociedade. Parecem-nos familiares estas suas aduções? Ao fim e ao cabo, o mundo é uma bola que rebola, já dizia alguém:

Usos deste mundo 

Nas praças uns perguntam novidades; 
Outros dão volta às ruas, ao namoro; 
Este usuras cobrar, esse as demandas 
Lembrar corre ao Juiz que se diverte. 
Ir de Jano aprender a ser bifronte, 
De Mercúrio, no trato, a ser bilingue, 
Franco no prometer, no dar escasso. 
C'os olhos fitos no ávido interesse 
Ser consigo leal, com todos falso 
É ser homem capaz, home' entendido. 
Assim, que vemos nós por este esconso 
Mundo? Vemos logrões, vemos logrados; 
Ninguém vês ir com cândido desejo 
Aos Sénecas, aos Sócrates de agora 
Perguntar as lições tão necessárias 
De ser honrado, ser com todos justo. 
Tão sobejos se crêem de honra e virtude, 
Que cuida cada um poder de sobra 
Mostrar na Ocasião virtude a rodo, 
E chega a Ocasião, falha a virtude.


Poema de:Filinto Elísio,1734-1819
 in "Miscelânia"


Péricles na ágora ateniense (Sec.V a.C),
ao fundo, A Acrópole de Atenas

Já que o próprio Filinto Elísio se refere no seu poema a figuras da antiguidade clássica, recupero dali a palavra praça, traçando eu um paralelismo, um tanto exagerado, com a ágora, lugar de destaque na constituição da polis, onde se faziam comunicações, se transmitiam ensinamentos, se discutia política, e até funcionavam mercados e feiras livres. Espaço de cidadania, uma expressão muito usada presentemente.

Ágora ateniense - imagem arqueológica


Entre nós, isto é, na actualidade, a praça pública já tem outros contornos, com laivos do diz-que-diz, do fait-divers, de notícias digeridas, analisadas e comentadas por pretensos especialistas. 
De referir que a sociedade naquela altura também não era isenta de intrigas, acusações, condenações, muitas vezes, com efeitos nefastos para certas personalidades.



Diz que Diz - Sara Tavares

 Ouçamos Sara Tavares, no seu Diz que diz: Linda Voz!


A imagem acima será uma idealização da figura de Péricles e dos cidadãos que se reuniam na ágora.
Imagens retiradas da Internet.Os meus agradecimentos a quem as publicou.
Biografia de Filinto Elísio

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Costura

Este é mais um poema que aqui transcrevo, com a etiqueta Mundo, uma pequena série que iniciei com o poema do post anterior, de Sophia de Mello Breyner Andresen. O seu autor chama-se RUI CASCAIS e retirei-o de uma obra sua intitulada a carne do rosto, título já de si um pouco inquietante. Realmente, segundo me parece, este poeta não escreve com o intuito de apresentar uma visão mitigada do mundo, nem para apontar soluções. Contudo,  vislumbro uma pequena sugestão, talvez no sentido de que caberá a nós próprios virar o mundo do avesso e fazer uma revisitação aos seus fundamentos
Não lhe encontrei elementos biográficos neste mundo virtual, talvez por incapacidade minha na pesquisa. Apenas referências à sua função de tradutor, vertendo para o inglês e/ou chinês obras de alguns autores portugueses como, por exemplo, Eugénio de Andrade. 

Costuremos, pois: 


Costura

não ocupa
espaço.

não se trata apenas de um cenário.
uma seda desce o corpo.

não se trata
de um bastidor.

talvez uma luva.uma preensão que o mundo
pode finalmente inverter sobre nós,

como se finalmente descobríssemos
a sua vontade, visitando o avesso.





Incluo neste post o comentário, de Mariavaicomasoutras, que me parece muito interessante e que nos leva, quiçá, a explorar outros caminhos:

Mariavaicomasoutras

A dimensão do verso no reverso de uma coisa.
Assim são todas as coisas
Num espaço que não o é sendo-o.
Por isso a resposta
quase sempre se encontra
no virar
no revirar
de uma página!

_________________________

Mote
Poema de:
Rui Cascais

in: a carne do rostoed. Instituto Camões
Macau. 1999

Imagem retirada da internet, com a devida vénia ao blog: osilencioentreaspalavras.blogspot.com

segunda-feira, 2 de julho de 2012

A forma justa

Sei que seria possível construir o mundo justo 
As cidades poderiam ser claras e lavadas 
Pelo canto dos espaços e das fontes 
O céu o mar e a terra estão prontos 
A saciar a nossa fome do terrestre 
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia 
Cada dia a cada um a liberdade e o reino 
— Na concha na flor no homem e no fruto 
Se nada adoecer a própria forma é justa 
E no todo se integra como palavra em verso 
Sei que seria possível construir a forma justa 
De uma cidade humana que fosse 
Fiel à perfeição do universo 

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco 
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo 

Sophia de Mello Breyner Andresen
in 'O nome das coisas' - citadorINTERESSANTE
Vejam, por favor, Na ESQUINA DO TEMPO, homenagem a esta autora:NAVEGAÇÕES -Parte I,NAVEGAÇÕES - Parte II